A Perifa – Seus encantos e perigos. Uma ode ao bom senso e ao respeito por nossas quebradas.

Cheguei em Brasília em fevereiro de 1990, faltando poucos dias para completar 10 anos. Vindo de uma cidade pequena do sertão nordestino (Nova Russas-CE), bem adaptado a apenas 2 refeições diárias e havaianas de cores diferentes, não por moda, entendedores entenderão.
 
Passei os dois primeiros anos morando em uma casa muito massa, no Lago Norte, onde minha mãe era doméstica e onde aprendi minha primeira profissão, lavador de carros.
 
Depois conheci algo mais parecido com o lugar de onde vim, com um toque a mais de violência, Brazilinha (ou Planaltina de Goiás), depois Planaltina/DF, Santo Antônio do Descoberto, Recanto das Emas e a maravilhosa Ceilândia. Ou seja, passei maior parte da vida na periferia do Distrito Federal. Ali não apenas sobrevivi, mas encontrei minha paixão, a cultura Hip-hop que, diferente do que muitos pensam, resgata pessoas do crime, interfere diretamente na evolução e mostra muito do que não encontramos nos livros. Sim tem o lado ruim, mas creiam, é minoria.
 
A rotina da perifa consiste em pontos de ônibus lotados já as 5 da manhã, coletivos cheios de profissionais chegando no horário aos centros pra servir com honra e dignidade.
 
A violência, o tráfico e a prostituição está longe de ser o que move nosso povo, assim como o modus operandi não é o crime, também não o é a calamidade, por mais que seja o motivo da mídia nos procurar.
 
Desde 2008 morando entre as asas, por uma questão de comodidade e logística, ainda ouço que pessoas das “satélites” são inferiores, incultas e/ou dadas a violência.
 
Um fato simples, pra fechar o textão, é que se tirar a perifa do miolo não tem mão de obra pra suprir a mordomia que movimenta as coberturas e mansões, muito menos o comércio, a construção, etc., ou seja, a capital para. Por isso, acho de bom tom o início do entendimento de algo simples, “a posição geográfica de um indivíduo não deve, em hipótese alguma, trazer prejulgamentos sobre índole, caráter e moral”.
 
Já que os bilhões que nos faltam nos cofres públicos não foram desviados por estes. Até onde sabemos, tais criminosos dificilmente aparecem na quebrada, a não ser pra pedir votos em tempo de eleição. Por outro lado são os maiores responsáveis pelas mazelas que afetam a população.
 
Sendo assim, antes de abrir a boca pra falar sobre periferia, convém uma reflexão sobre o quão diferente seria a situação nestes lugares se o poder concentrado nos palácios fosse utilizado em favor dessas pessoas.
 
Amém, sem mais por hora!
 
Tony L. Draper
Tony Lopes - Designer, ativista, amante da natureza, ouve rap compulsivamente, viciado em séries e tranquilidade.
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